As Nossas Lembranças

Escrito por Angelica Chaves
Qui, 20 de Janeiro de 2011 21:05

– Escrito pela professora Angélica Chaves -(2011)
o tempo é implacável e crava suas marcas de forma dissimulada e contundente, tanto no nosso aspecto fisico como emocional, e só vamos nos apercebendo, à medida que ele vai se afastando. O tempo interage em nossa vida, levando consigo a nossa juventude e deixando, em troca, a sabedoria e as lembranças.
o social e cultural, é que vai moldar o nosso jeito de ser e de viver.É onde nós nascemos que vamos aprendendo as primeiras noções de educação, de sociabilidade, de trabalho, enfim, naquele local começa a formação de nosso caráter e de nossa personalidade.espaço fisico onde passamos a nossa infância, considerando-se seus aspectos humano,

Estamos aqui para reviver um passado que pode ter sido mais ou menos importante para alguns, porém, deixou sua marca presente pelo tempo afora. Para fazer este relato, pedi a assessoria de minha mãe, GUIOMAR CHAVES, hoje com 92 anos de vida, parte dos quais aqui em Terra Nova. E de meu cunhado Valdir Weste, também daqui, de tradicional família terranovense, filho de Zacarias Weste e D.Eugenia, jáfalecida. Valdir começou sua vida de trabalho nos escritórios da Usina Terra Nova, denominada Grupo Reunido S/A Lavoura Indústrias Reunidas que era formada pelas Usinas Terra Nova, São Bento, São Carlos e Aliança. Inicialmente, esse Grupo tinha como sócios acionistas: Carlos Costa Pinto, Oscar Pereira de Magalhães e Antônio Silva.

A população ativa de Terra Nova era constituída por operários e funcionários da Usina e os que ofereciam os serviços à população, como os comerciantes, incluindo-se aqui o meu pai – LANDULFO CRAVES.

Foi dentro desse contexto que nasci e vivi a minha infância e juventude. Acostumei-me a ver Terra Nova como a casa da mãe,literalmente, no sentido exato da palavra, uma vez que é o local onde sevolta de vez em quando para recompor as nossas energias, reabastecer as nossas baterias; repor as nossas perdas. No imenso universo de minhas lembranças, lá está o Rio Pojuca, com suas águas barrentas, e que, na minha ignorância infantil, não sabia de onde vinha nem para onde ia, apenas sabia que ele dividia a minha terra em dois lados, com uma ponte grande e bonita ligando esses lados. Meus olhos procuraram com ansiedade a ponte e não mais a encontrei. Senti sua falta.
A minha casa ficava do lado de cá da ponte e do outro lado ficavam a Usina, o Hospital, as casas dos diretores e gerentes da Usina, o Chalé,outro pedaço encantado de minha meninice. Da varanda de minha casa,todos os dias, eu atravessava o rio e o Cantagalo e viajava até lá, na minha imaginação, eu via suas escadarias de mármore, adorava ficar olhando seu estilo imponente, sobressaindo-se de um jardim verdinho, com seu estilo arquitetônico copiado, talvez, de construções inglesas daépoca.

Como aqui não tinha Ginásio, tínhamos que prestar exame de admissão ao ginásio em Santo Amaro ou Feira de Santana. E o trem era o meio de transporte usado nessas andanças. Quando estávamos chegando detrem, ele parava em cima da ponte, a fim de reabastecer de água alocomotiva.

Nas minhas recordações as máquinas carregando seus vagões cheios de cana-de-açúcar, atravessavam muitas vezes Jdurante o dia.as ruas,levando a cana para a Usina, deixando impregnados em nossa visão, olfato e ouvidos e até no paladar, a fumaça com o cheiro característico de lenha queimando, e a cana que muitas vezes nossos irmãos puxavam dos vagões parados, descascavam e nos ofereciam para saborearmos seu insuperável sabor de mel.

A Usina também tinha seu apito, que era ouvido em horários certos,invariavelmente, às 6 e 11 horas da manhã e às 18 hora, para a mudança de turno dos operários. Havia ainda o delicioso e inesquecível mel produzido pelas mãos abençoadas desses operários e que até hoje sinto o seu sabor. Aquele mel que o Seu Manoelzinho Mota mandava para aguardar a nossavolta de Santo Amaro, de férias, para então, cair de boca nesse maná dos céus. Seu Manezinho, como era conhecido, era um simples operário da Usina, marido de D. Margarida, e que era responsável pela determinação com precisão, do ponto exato em que o mel seria transformado em açúcar,acredito que seria então, afastado das altas temperaturas. Ao se aposentar, foi então Seu Manezinho substituído por técnicos que vieram fazer essa tarefa tão importante, com base em teorias acadêmicas. Resultado: vieram buscar o nosso amigo para orientar o pessoal, na época, na Aliança.

As Micaretas de Terra Nova merecem um capítulo à parte. Meu pai,Landulfo Chaves,
juntamente com seus companheiros do comércio: Avelino Firmo Pereira e Tomazinho Acácio, fundaram o Clube Carnavalesco Viver Só Assim e promoveram memoráveis Micaretas para as quais eram atraídos foliões de muitas cidades circunvizinhas.

Depois foram surgindo outros clubes, dentre eles o maior rival do Viver Só Assim, o Riso Entre Flores, formado por pessoas ligadas à Direção da Usina. Cada Clube fazia mais segredo de suas fantasias e das atrações dos seus carros alegóricos. Tudo era feito debaixo de sete capas para que o outro não soubesse.

Havia ainda o Amantes da Farra, formado, na sua maioria, por operários e funcionários da Usina, e também por rapazes do local. Foi organizado por Sr. Artur Dantas, Caixa da Usina e cunhado de meu pai. Os Diretores dos Clubes procuravam contratar bons músicos, para animar os cordões, naturalmente, também, funcionando como segredo de estado. Nada se comentava, para que o outro Clube não soubesse. Os Amantes de Farra contratava a Banda da Polícia Militar de Salvador.
Destacamos ainda as Melindrosas em Folia e o Balancê que, praticamente,lançaram por essas bandas, a música título de seu cordão, e que ficou famosa na voz de Gal Costa: Ô balancê, balancê, quero brincar com você, entre na roda morena, etc …

As Micaretas de Terra Nova ocupavam o 2° lugar em prestígio popular,perdendo apenas para Feira de Santana. Vou arriscar a dizer que esses Clubes e Cordões foram os precursores dos Blocos Carnavalescos que animam os Carnavais de Salvador, como o Camaleão, Eva, Pinel, etc. Só que, sem a infra-estrutura destes, uma vez que os nossos Cordões era um espetáculo puramente de lazer, de diversão, não havia fins lucrativos, muitopelo contrário.

No que se refere à educação dos jovens terranovenses, destacamos a figura da Profa. Lulu, mãe de outra professora que muito marcou algumasgerações que foi a professora Maria de Lourdes Luna – a Profa. Merita. Depois, muitas outras professoras deixaram lembranças de seu trabalho feitocom afinco e amor, como a minha irmã Dulce Chaves, Maria José, Glorinha evou parando por aqui para não cometer injustiças com muitas outras.

Dr. MeIo foi um abnegado médico que atendia não só a população de TerraNova como de localidades próximas. Ele costumava orientar à população mais carente, utilizar a farinha de mandioca, bem pilada, e passada num paninho fino, transformada, então, quase num pó, e levada ao fogo com um pouco de leite de vaca ou mesmo água, seria a alimentação alternativa para os seusbebês. Óleo de rícino era usado anualmente para combater a verminose e no dia de tomá-lo, era um espetáculo à parte. Defensol e Emulsão de Scott, com o bacalhau nas costas do homem, na frente do vidro, eram remédios com marca registrada na nossa memória.

As feiras livres eram realizadas no largo em frente à Igreja de São Roque, cujo altar veio de uma extinta capela que existia no Papagaio,me lembro de meu pai falando, e às 2as feiras.

Enfim, as lembranças são muitas e agradá, mas o tempo veisé o vilão por nos impor sempre seus limites.
Usando uma linguagem atual, a nossa memória guarda as lembranças de tudo que ocorreu conosco, num arquivo computadorizado, porém, sem nos esquecermos de teclar a palavra “Salvar”, a fim de que não se percam no espaço, os itens tão preciosos que foram preservados no nosso arquivo memorial, tais como as pessoas e fatos que exerceram muita ou pouca importância em nossa vida. A nossa história de vida, o relato vivo de um passado experimentado por gerações que ajudaram a construir uma cidade,um local, que é ou foi o nosso berço.