BOTADA; JUNTAS DE ALFORRIA; O NEGRO REVOLTADO; PIERRE FATUMBI VERGER

Escrito por Viraldo B. Ribeiro
Ter, 01 de Janeiro de 2002 13:09
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Número 09 – Edição 01 – Sítio Inhatá, janeiro 2002
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BOTADA

campoNos engenhos e usinas, é o começo da moagem. Botada é muito mais do que essa simples definição. No dia do início da moagem, era festa não só na usina. Era festa na localidade. No Recôncavo, nas usinas de Santo Amaro, assim como foi nos engenhos, a botada se dava no mês de setembro. A cana flechada (um lindo tapete branco), desde agosto, indicava que estava madura, pronta para a transformação nas usinas, para onde era transportada nas cangalhas dos burros, nos carros de bois e nos vagões.

As flechas e as canas com as palhas eram usadas para ornamentar as máquinas a vapor, os vagões vazios, os caminhões. Também se usava as palmas de pindobas, dendê, coqueiro e nicuri.

No município de Santo Amaro, nas usinas Terra Nova, São Bento do Inhatá, Aliança, Paranaguá, Itapetingui, Capimirim, São Carlos, Santa Elisa, Passagem. Com certeza um dia qualquer de setembro, era dia de festa, era a botada.

Abria-se a festa com uma missa, pela manhã, no Chalé. Logo vinha a cavalgada, com os cavalos e cavaleiros enfeitados. As máquinas pintadas de novo, com as cores características da indústria, apitavam alternadamente em compassos diferentes, ao gosto dos maquinistas, como se música fosse. Quem ainda não houvesse entrado no clima saia às ruas logo que ouvia os apitos e as descargas das caldeiras.

E lá se iam ou vinham a Tamoio, Tupi Suruá, e se ouviam os apitos da Brasil, da Aimnoré, Timbira, Pojuca. Na verdade o sinal já fora dado na véspera quando a fumaça começava a sair do bueiro – dia de experiência. A botada acabou muito antes do ciclo das usinas. Mas quem assistiu, quem participou, a tem bem nítida na lembrança.

Resto do Engenho Passagem dos Teixeira


Quem caminha no rastro dos engenhos e das usinas de açúcar percebe que a decadência não foi tão somente dessas fábricas de açúcar. As comunidades, os lugarejos desapareceram ou resistem teimosamente para contar história. Nem o estado nem os senhores de engenho, muito menos os usineiros se preocuparam com o destino dos escravos ou dos trabalhadores quando o açúcar não dava mais. O liberto nunca foi opção para suprir o mercado de trabalho assalariado. A alternativa foi sempre o branco europeu.

As conquistas nas Assembléias e no Congresso são válidas, pois é um sinal de que a luta continua. Mas enquanto não for colocado na escola pública, onde realmente se atinge o alvo, o tema escravatura abordado econômica e socialmente, nos cursos primários e secundários, os negros se sentirão deslocados numa cidade , num bairro, ou até mesmo em certos locais de lazer. O resgate de identidade é fundamental.

Vemos na foto (página inicial) um grupo de negros e mulatos, os Chapas, como são chamados aqueles que, na beira das estradas, ou nos postos de gasolina, acenam para os caminhões, aventurando trabalhar na carga ou descarga . No Recôncavo podem ser vistos na Br 324 entre Cova de Defunto e a entrada de Valéria. Esta é a herança da falta de instrução.

JUNTAS DE ALFORRIA

cofre“Para facilitar estas compras de liberdade, os africanos organizavam juntas de alforria, espécie de organização de ajuda mútua, onde certo numero de escravos de ganho se reuniam com alguns africanos ou negros nascidos no Brasil já libertos, para construir uma caixa”. Noticias da Bahia 1850 Pierre Verger pág. 218

Visitamos e fotografamos, no Terreiro de Jesus 17, a sede da Sociedade Protetora dos Desvalidos, fundada em 1832. Lá se encontra em perfeito estado a Caixa onde se juntava o dinheiro que os negros usavam na compra da liberdade dos escravos. Conversamos com o Sr. Agripino Evangelista (foto)– Diretor da Entidade, um preto de 84 anos que, entre outras coisas, nos disse “foi o primeiro Instituto de Previdência do Brasil”… “Vários escravos que compraram suas liberdade e retornaram para África tornaram-se ministros em seus países.” A sociedade possui vários imóveis alugados, fonte de receita para manutenção e pagamento de pensão das viúvas dos sócios. Ficamos de retornar e conhecer a Biblioteca.

O NEGRO REVOLTADO

nrevoltadoAbdias do Nascimento, em O Negro Revoltado apresenta“ documentos relativos ao I Congresso do Negro Brasileiro…teve lugar no Rio de Janeiro em 1950”.

Do tema destacamos alguns aspectos: Preconceito, “Um negro ilustre, de outras plagas aqui chegando, procura instalar-se de acordo com o que determina a sua posição. Procura as melhores casas do ramo de hospedagem e vê-se inibido de ali permanecer…Um estudante negro, desejando seguir carreira diplomática, vê desoladamente que lhe estão fechadas as portas do Itamarati”.

Do preparo para o mercado de trabalho: “Chega 1888. Sem nenhum estágio preparatório para que ao menos lhe fosse possibilitada a adaptação necessária à sociedade agora comum, para o exercício da condição do homem livre, é o negro solto bem no meio dessa complexidade enorme que caracteriza o mundo civilizado. Surpreso, estarrecido e deslumbrado, marcha celeremente para o caos…”

Do aspecto liderança: “Nunca o negro brasileiro teve líderes. Patrocínio e Gama eram abolicionistas, não eram condutores de massa. Batalhavam por um ideal, juntamente com outros abnegados brancos”.

Esta questão de líder é muito importante na formação coesa de um grupo. Os compradores de escravos tinham muito cuidado na seleção, evitando juntar negros que falassem a mesma língua, mesma religião, tudo aquilo que tivesse uma identidade. Buscava às vezes comprar elementos de grupos rivais.

A impressão de que os negros da África eram um grupo único, é apenas impressão, na verdade eles, no Brasil, não formavam um grupo homogêneo.

“Os novos escravos, transportados clandestinamente vinham juntar-se algumas vezes àqueles que tinham sido trazidos fazia muitos anos…Constituíam sociedades distintas que guardavam seus costumes, praticavam seus cultos tradicionais e falavam línguas particulares que permaneciam ignorados dos outros. Guardavam assim presunções, paixões, simpatias e seus ódios recíprocos”. Pierre Verger, Fluxo Refluxo pág.330

O governo encorajava essas divisões, que tornavam mais difícil uma rebelião geral dos escravos contra os seus senhores, como aquela que havia ocorrido na ilha de São Domingos(Haiti).

O Papel da Elite

É muito difícil se falar sobre determinado enfoque social, sem o cuidado de uma pesquisa ou respaldo cientifico. Mas às vezes o fenômeno é tão evidente que, como informação, o fato deve ser abordado. É o caso do comportamento da elite .

O desenvolvimento de uma sociedade passa necessariamente pela atuação de sua elite. Quando esse grupo não cumpre o seu papel no processo histórico de integração da grande classe, na educação, na saúde na, renda e na ocupação da terra, o fosso entre as classes aumenta e, com certeza, como grupo, essa será uma sociedade desacreditada. Se não surgirem da própria comunidade lideres com idéias avançadas, a tendência é que essa comunidade não entenda o seu papel de cidadãos integrados ao sistema.

Se uma elite , fugindo do seu papel, procurar tão somente buscar soluções para manter seus privilégios, os resultados serão catastróficos, violentos, preocupantes para todos.

PIERRE FATUMBI VERGER

pierre“Pierre Verger nasceu em Paris, no dia 4 de novembro de 1902. Desde 1946 viveu na Bahia, onde aportou após um longo período de viagens pelo mundo inteiro. Fotógrafo, etnólogo, doutorou-se em estudos africanos pela Faculte dês Letters et Sciences Humaines de lÚniversidté de Paris – Sorbonne, sendo ainda membro correspondente do Musée National d’Histoire Naturelle de Paris, ex-diretor de pesquisa do Centro National de la Recherche Scientifique – CNRS – Paris, ex-professor visitante da Universidade de Ifé-Nigéria, professor assistente da Universidade Federal da Bahia.

A relação de Verger com a cultura negra ultrapassa o simples interesse intelectual. Verger foi iniciado como babalaô quando estudava a arte divinatória de Ifá, recebendo o nome de Fatumbi “renascido pelo Ifá’. No candoblé na Bahia, exerce a função de Ogã Oju Oju) no Opô Afondjá e (Otum Mongab) no Opô Aganju.

Nos últimos anos, Pierre Verger concentrou seus esforços na organização da extensa documentação colhida ao longo de 40 anos de pesquisa e na divulgação de sua obra, preparando livros, artigos, mostras fotográficas e conferências, atendendo as solicitações que chegam de diversas partes do mundo”. Fluxo e Refluxo – Contra Capa

Verger morreu no mês de fevereiro de 1996 em Salvador. Neste ano de 2002 comemora-se seu Centenário de nascimento.

A obra do pesquisador está aberta ao público na Travessa Vila América numero 6, endereço da Fundação Pierre Verger.