FREGUESIA DE SANTO AMARO

Escrito por Viraldo B. Ribeiro
Sáb, 23 de Maio de 2009 15:34

samaroRelação da Freguesia de Nossa Senhora da Purificação de Santo Amaro do Recôncavo da Bahia pelo Vigário José Nogueira da Silva (1704)
Arquivo Público – Guia de Secção Colonial e Provincial Livro 609 páginas 57/58.

Teve esta freguesia sua primeira Igreja Matriz no Sítio de Engenho do Conde de Linhares fundado na margem do Rio Sergipe e por esta razão se intitulava naquele tempo com o nome de Nossa Senhora da Purificação de Sergipe do Conde. Como o dito sítio não era conveniente, no ano de 1704, meia légua rio acima, se fundou nova Matriz em um sitio chamado Santo Amaro, por haver nele uma capela consagrada ao mesmo Santo e uma pequena povoação de alguns vizinhos, ficando a nova matriz distante da capela, também rio acima, um tiro de peça.
Cresceu esta povoação pela grande conveniência que neste Sítio tinham os seus moradores, por ser abundante de carne, pescado, farinha e todo gênero de legumes, e por haver nele três engenhos de fabricar açúcar, de que hoje se descobre algumas ruínas, e por ser também grande a comunicação para os Engenhos da Mata do Traripe e Subaé. Todos conduzem os seus feitos para o deste Sítio por ser a porta de mar mais conveniente, com Trapiche para as caixas, e com muitas embarcações que no rio navegam.
Há esta Matriz, templo majestoso pela sua magnificência porque na sua grandeza compete com a Freguesia de S. Bartolomeu de Maragogipe, e excede a todas as mais Matrizes do Arcebispado, e ainda as da Cidade da Bahia, e, se for mais agradável, por fazer frente a uma praça que tem no largo quarenta braças e mais sessenta de comprido; armado de uma a outra parte de casas, além das que há por outras ruas, em que habitam os moradores.
Tem de frente três portas principais, além de duas travessas que tem para um outro lado, todos com portados, remates de pedra mármore, com janelas e semelhas da mesma pedra, e da parte de dentro se sustenta o coro sobre duas colunas também de mármore de singular artifício, servindo de base a cada uma delas as pias de água benta fabricadas com primorosa arquitetura. Tudo mandaram buscar os Fregueses daquele tempo a Lisboa e com despesas suas fizeram esta majestosas Matriz.
Tem cinco altares, alem destes, uma Capela fechada com grades de ferro com retábulo de talha dourado, com as paredes todas cobertas do mesmo modo, onde está depositado em um primoroso sacrário o Santíssimo Sacramento. Pela decadência dos tempos, não podendo os Fregueses pôr esta Matriz na sua última perfeição, recorrerem a S. Majestade para que fosse servido de lhes mandar uma esmola, com que a pudesse acabar. E foi o dito Senhor por sua Real Grandeza servido de lhe mandar dar doze mil cruzados que se despenderam na feitura de um grande retábulo de talha para Capela Mor, grades de jacarandá de talha para corpo da igreja e seu coro, e nas portas da mesma Matriz; e tudo ficou na última preparação. E como o dito Senhor mandou dar a referida esmola com denegação de se lhe pedir outra, se acha o retábulo por dourar e a mesma igreja forrar para o que não podem concorrer os Paroquianos pela impossibilidade dos tempos presentes.
Está fundada esta Matriz quase no meio de território, que compreende dentro de seus limites; por três lados dista das extremas das freguesias com que confina duas léguas pouco mais ou menos, o lado da extrema da freguesia de S. Gonçalo da Barra de Sergipe do Conde dista uma légua; pela parte do Sul confina com a freguesia de São Domingos da Saubara. O território que se compreende na distância de duas léguas todo se intitula com o nome geral de Patatiba, suposto que cada sítio tenha seu nome particular com que se distingue uns dos outros.
Neste continente ou pais se acham oito engenhos de fabricar açúcar, a saber: dois do colégio de Santo Antão da Cidade de Lisboa, um chamado do Conde, por haver sido do Conde de Linhares, de quem i dito colégio houve por legado ainda conserva o nome de engenho do Conde. Esta este engenho fundado na margem do rio de Santo Amaro que algum tempo se chamou Sergipe do Conde, muito navegável de embarcações que carregam cinqüenta e mais caixas de açúcar, porque as águas deste rio, unidos com as águas do rio Piracoara e muito mais com as águas do mar, que nas enchentes das marés entram pela barra do Sergipe do Conde, o fazem navegável das ditas embarcações. Tem este engenho uma capela dedicada à gloriosa Santa Quitéria que serviu de primeira Matriz desta Freguesia. Outro engenho do mesmo colégio se chama Pitinga e tomou o nome de um rio, em cuja margem se levantou. Nasce este rio numa mata chamada Campo de Criolo quatro léguas fora dos limites desta Freguesia e corre pelo território da Patatiba no sítio chamado Penha, por haver nele nos tempos passados uma Capela, dedicada á mesma Senhora, e um engenho de fazer açúcar, e tudo está hoje demolido. Recebem as suas águas em um grande tanque feito de paredões de pedra e cal donde se encaminham por distância de meia légua por uma levada feita a este intento para o engenho do Conde, pelo sítio do engenho da Pitinga. Se diverge da dita levada um anel de água que também mói este engenho. As sobras das águas deste rio, que se não recebe no tanque, buscam com o seu curso o mar, segundo a disposição do terreno, correndo pelo lado do mesmo engenho a que deve o nome. É navegável do sítio do engenho para baixo buscando o mar. No rio de Santo Amaro as barcas entram carregadas de lenha para as moagens dos engenhos, e saem carregadas de caixas de açúcar dos mesmos engenhos para os trapiches da Cidade. A navegação não é pela abundancia das águas do mesmo rio, mas sim pelas marés que por ele entram.
samaroOs mais engenhos deste território são o Engenho São Brás, o de Santa Catarina, o de Santo Antonio, assim chamados por terem capelas consagradas aos mesmos santos.
São estes três engenhos de beira-mar, porque entram neles nas enchentes as marés com grande abundância de águas pela barra do Sergipe do Conde, e dividindo-se em vários braços à maneira de rios. Chegam aos ditos engenhos também em barcos grandes que recebem lenhas necessárias para as suas moagens, e conduzem para a Cidade os seus efeitos. Os mais engenhos deste território são o engenho Preguiça, o de Coligy, o de São Cosme, assim chamado por ter uma Capela consagrada aos santos Cosme e Damião, e o engenho Pitinga, com Capela consagrada a Nossa Senhora da Aurora. Tomou este nome de um rio não navegável chamado Pitinga, que nasce nas matas da Pitingaduas léguas distantes do dito engenho e, ao depois de moer este com as águas deste rio, corre segundo a disposição do terreno três quartas de légua pouco mais ou menos e se metem no rio chamado Sergiassú do qual daremos notícias no seu lugar. Houve na vizinhança deste engenho três lugares, povoações que o tempo presente estão quase desertos, porque, com seus habitadores viviam de plantares mandiocas em terras arrendadas sendo-se perseguidas das formigas que decepam, absolutamente destroem, a tal lavoura, se foram mudando para outras Freguesias de matas novas. Chamam os três lugares que se desertam, Irará, Tata e Pisaumas. E por esta razão tem suas Freguesias muita terra infrutífera. Pela parte do oeste, esta Freguesia se limita com a de Nossa Senhora de Oliveira do Campinhos. Tendo também à distância dentro do seu território, duas léguas, todo ele se nomeia e intitula com o nome de Subaé por razão de um rio assim chamado que corre por todo este terreno buscando o mar.
Acham-se nesta distância cinco engenhos de fabricar açúcar a saber: o engenho Pantaleão, assim chamado por conservar o nome do seu primeiro fundador; o engenho do Tanque; engenho dos Três Reys, que se honra com o nome da Capela dos Santos Reys Magos; o engenho Taraguanhá e o engenho Jericó. Todos foram fundados à margem do dito rio por receberem dele o beneficio das suas águas. Tem este rio Subaé a sua nascença no sitio chamado Limoeiro, termo da Vila da Cachoeira e, de fazer seu curso pelo sítio de Nossa Senhora dos Humildes, termo da dita Vila, se dirige pela freguesia de Nossa Senhora da Oliveira dos Campinhos e com sete léguas de distância entra nesta freguesia de Nossa Senhora da Purificação pelas terras a que deu o seu nome. E chegando ao engenho dos Santos Três Reys recebe em sei as águas do rio Sergiassu, que nasce nas vargens Ferrabichas distrito da Vila de Cachoeira e depois de correr sete, ou oito léguas, por lugares despovoados, vem morrer nos braços do Subaé e nele perdaer o nome de Sergiassu, e continua o dito Subaé o seu curso uma légua adiante.
Na entrada desta vila recebe também em si as águas de outro pequeno rio chamado Sergimirim que nasce desta freguesia no Sítio chamado Aldeia. Depois de uma légua de curso, perdendo também o nome, se mete no mesmo Subaé que já mais enriquecido de águas dos dois pequenos rios que nele entram, costeando por um lado toda a longitude desta Vila, chega a Capela de Santo Amaro, e também perde o nome, chamando-se de rio de S. Amaro, daí ate a baarra de Sergipe do Conde ponde se mete no mar. É neste rio navegável de canoas, embarcações pequenas até o engenho dos três Reys, e de barcos até o Tararipe, que tem esta Vila fundada pouco abaixo da dita Capela de Santo Amaro.
Pela parte do Norte, confina esta freguesia com a de S. Pedro do Rio Fundo, em distância de duas léguas pouco mais ou menos, e todo esse terreno se denomina como de Tararipe, suposto que seus sítios que nele se compreende se distinguem com nomes particulares. Deu a esse terreno o nome de rio Tararipe que nasce nas vargens do Bom Jesus, freguesia Nossa Senhora da Oliveira dos Campinhos, e dando muitas e grandes voltas, segundo a disposição do terreno, entra nesta freguesia com suas águas. E depois se estende, com outras duas léguas de curso, até o engenho do Mamão e aí recebe em si as poucas águas do rio Tapitingui, que também nasce na freguesia de Nossa Senhora da Oliveira dos Campinhos, no Sítio chamado dos Pains, correndo meia légua pelas terras do Tararipe, que nem com o socorro das águas do Pitangui que em si recebe, é navegável de embarcação alguma. Se sepulta no dito engenho do Mamão no próprio rio Tararipe, que correndo que correndo par o mar ou grande de Santo Amaro nele se sepulta, mas com diferente porque entre montes de Aricoara e Piricoara do último toma o nome com que morre. Tem este terreno doze engenhos de moer açúcar a saber: o engenho D. Hyeronimo com uma capela intitulada da Transfiguração do Senhor; o engenho de Balderés, com uma Capela consagrada à Senhora do Desterro; o engenho da Mata, com uma Capela da senhora do Rosário; o do Engenho Novo; o engenho do Amor de Deus; o Engenho de S. Miguel que se honra com este glorioso nome por ter uma Capela consagrada ao mesmo arcanjo; o engenho da Corumbá; e o engenho da Passagem de baixo do Tararipe que dirige seu curso por todo este país com beneficio grande de tosos os sobreditos engenhos.
Pela parte doleste, confina esta freguesia co a de S. Gonçalo da Barra do Sergipe do Conde ou Vila São Francisco, com uma légua de terreno. O mesmo rio Tararipe com este nome, depois com o nome de rio Piracoara, serve de divisão entre estas duas freguesias. É todo este pequeno terreno chamado Piracoara, e toda a sua povoação consta 73 fogos ou choupanas, cujos moradores vivem pobremente de alguns que plantam, os mais deles por seu braço em terra que arrendam por cuja razão não são moradores permanentes. O grande dano e prejuízo que lhes fz a formiga, faz mudar do Sítio e freguesias. Porém há no Sítio uma Capela consagrada ao Senhor com o nome de Pilar, que ainda se conserva da antiguidade, porque o seu fundador a deixou dotada de um rico patrimônio para reparar as suas ruínas e conservar nela Capelão que diga todos os dias missa pela sua alma, o que tudo se observa.
Consta toda Freguesia de 800 fogos de 6.429 almas, destas são de comunhão 5.000 e as de confissão somente por rudes são 1.163, menores de confissão e comunhão 1237 menores que não comungam por faltas de discrição 123. Porém a maior parte dos fogos desta Freguesia é de gente muito pobre, escravos, forros, velhos, miseráveis. A maior parte das almas são negros escravos que trabalham nos engenhos e lavradores de canas, porque há engenhos que tem mais de cem escravos, e lavradores de canas mais de trinta havendo em suas casas poucas pessoas brancas e quando muito mulher e filhos se são casados, porque com poucos escravos não faz conveniência lavrar canas e com menos quarenta não podae engenho algum fabricar açúcar moendo redondamente. Esta é a razão de viverem os senhores dos engenhos e lavradores de canas nestes tempos presentes tão atenuados e de se acharem muitos engenhos demolidos e fazendas de canas desertas. E suposto é grande a extensão de terra desta Freguesia. Há nela muita terra despovoada em todo o seu território, que em outros tempos se lavravam.
Não há em toda a Freguesia povoação ou lugar permanente, mais que a povoação da Matriz, que se construiu.
Pesquisa realizada em julho de 2002.