HISTÓRIA DE TERRA NOVA

TERRA NOVA

foto1O presente trabalho considera o ano de 1900 como ponto inicial da história de Terra Nova.

Claro que as histórias se fundamentam em contecimentos que refletem no comportamento atual das pessoas; nas mudanças das coisas que compõem o cenário. Em um povoado, em uma cidade, ou seja, em um lugar onde vivem pessoas, existem as elites que comandam e tomam decisões. Ditam regras com reflexos nas demais classes. As regras ou leis que ditam os comportamentos se tornam mais igualitárias à medida que as classes menos favorecidas vão ficando mais esclarecidas passando a lutar pelos seus direitos. Esse estágio vai sendo alcançado com a educação, com a melhoria de escolaridade.
Até dez anos anteriores ao início do século XX, o Brasil era um país de analfabetos, escravos e escravocratas. A abolição se deu em 1888, um ano antes de o país se tornar república. A liberdade dos negros não lhes deu direito a nenhuma indenização. Foram lançados à própria sorte, sem direito nem ao menos um pedaço de terra para tirar seu sustento. Direito a um pedaço da terra em que tanto trabalhou.

Um país onde a maioria da população não escolhia trabalho, não tinha direito de estudar, nem mesmo de poder constituir uma família. Sem direito sobre si mesma, só poderia projetar na sua história, uma grande diferença entre as classes sociais.
Terra Nova, no ano de 1900, era um território formado por diversas fazendas cujos proprietários foram donos de engenhos, que transformaram suas terras em grandes canaviais e fazendas de gado. Entre os engenhos estavam o Aramaré, Periperí, Caraconha ou Caracuonha, e o engenho Terra Nova, que depois passou a denominar povoado.

O século XIX não havia deixado grande herança para que o século seguinte impulsionasse a economia, gerando emprego e renda para a população.
A indústria da cana de açúcar se perpetuou com base numa mão de obra barata ou gratuita, dificultando o crescimento de outros setores da economia, por não ter a quem vender, ou seja, faltava consumidor por que faltava renda.

A Ferrovia implantada na região, apesar de não representar um grande consumidor de mão de obra, foi de fundamental importância para o transporte do derivado da cana de açúcar e também para os deslocamentos, da população, entre Santo Amaro e Bom Jardim também para as viagens para Salvador, naquele tempo chamada Bahia.

A população, naquele inicio de século XX, recém saída de um regime escravista, tanto as elites como dos descendentes de ex-escravos, mantive o mesmo tipo de relação: o senhor e o subordinado.

No caso do povoado que começava a se estabelecer, a posse da terra, outro fator importante na equação econômica, continuava nas mãos de uma minoria. Contavam-se nos dedos, quatro ou cinco famílias como proprietárias.

É nesse ambiente que se faz o marco inicial de Terra Nova: ano de 1900. E nessa situação que os três pilares da Economia se combinam (Terra, Trabalho e Capital). O trabalho representado pela mão de obra e o capital pela Usina e Ferrovia. Dentro desse contexto formou-se o povo terranovense.

A terra completamente concentrada na mão de poucos, aliado ao fato de ser ela um território espremido entre o morro e o Pojuca, impedia que pequenos agricultores, com suas hortas, sítios, chácaras, prosperassem com novas atividades comuns nos municípios vizinhos.

O legado deixado respondeu positivamente por três ou quatro décadas, pois a agroindústria não requeria grandes conhecimentos.
Nos canaviais, por exemplo, a avaliação do cortador de cana baseava-se na sua resistência física, para os feitores e administradores de campo, bastava saber ler, escrever e fazer contas para darem conta de suas tarefas.
A partir da metade do século XX, porém, o mercado de trabalho passou a exigir novos conhecimentos técnicos para serviço; que não exigiam apenas a força humana, a escola pública deixou de atender a essas novas necessidades, deixando uma lacuna até hoje não preenchida.

É evidente que, se as leis que foram libertando os escravos (Ventre Livre, Sexagenário) fossem acompanhadas de cessão de lotes de terra em favor dos libertos e do direito de serem alfabetizados, o grau de consciência, em 1889, na abolição da escravidão seria outro.

Terra Nova, portanto começou no ano de 1900, favorecida com uma Estrada de Ferro Estrada de Ferro Santo Amaro; uma Usina de cana Usina Terra Nova; um povo livre; sem Escola; com monopólio de terra.

A ESTRADA DE FERRO

02 - Estrada de FerroA Estrada de Ferro Santo Amaro foi inaugurada em 1883, ligando (inicialmente) Santo Amaro porto escoadouro do açúcar produzido pelos engenhos – ao Jacu
Vale registrar, nesse trabalho, parte de uma pesquisa efetuada no Arquivo Público da Bahia, que identifica: o sentimento dos Senhores, quanto à instalação de novos empreendimentos na região, numa visão por demais individualista.

“Estrada de Ferro S. Amaro Extraído em icps da Estrada de Ferro Santo Amaro.”
Bahia 4 de outubro de 1878
Ilmo e Exmo Senr.

Tendo o Dr. José Pacheco Pereira por si e como representante de sua sogra Exma Baroneza do Bom Jardim e seus filhos negado o terreno de seus engenhos Terra Nova e Periperí a da fazenda Caracuanha preciso para a passagem desta estrada solicito de V. Exma. Que por intermédio do digno Dr. Procurador Fiscal da fazenda Provincial e no Juízo Competente se promova a desapropriação judicial dos referidos terrenos os quais se acham representados na planta junta.

São precisos para a estrada 103.830 metros quadrados ou 23,5/6 tarefas de terra, sendo 93.830 metros quadrados nos engenhos de Terra Nova e Periperí e 10.000 metros quadrados na fazenda Caracuanha, tudo como se acha marcado na referida planta.

Essa área, além de ser de terreno pouco próprio pra cultura não tem benfeitorias. O regulamento de 27 de outubro de 1855 mandava é certo indenizar os proprietários pelos terrenos que foram tomados para as estradas, mais tarde porem o Governo Imperial por Decisão de 10 de Fevereiro de 1871 sobre consulta do Conselho de Estado estabeleceu a obrigação que sempre tiveram os sesmeiro e posseiros de darem gratuitamente as estradas públicas e municipais, com direito unicamente a serem indenizados das benfeitorias .

A vista da clara e terminante disposição da referida Decisão, de data mais recente do que o citado Regulamento, e sendo certo que os terrenos em questão são sesmeiros e posse, e não contem benefícios, parece-me que pela sua disposição não deva a Província pagar a indenização. E como referido Dr. José Pacheco Pereira, me haja até negado autorização para executar a obra da estrada nas mesmas terras se prejuízo do direito que provar se vier ter o proprietário a qualquer indenização, parece-me que a desapropriação deve ser feita no mais curto prazo possível sem que grande atrazo terão as obras da estrada, pois trabalhos importantes inclusive uma grande ponte ali a fazer as quais se forem demoradas, muito retardarão a abertura da estrada.

Deus guarde a Vexcia.
Ill.Exmo Snr. Conselheiro Barão Homem de Mello
Digmo Presidente desta Província
Augusto Fernandes Pinheiro
Engo Em Chefe”

Nada ficou do Ramal Ferroviário como marca da história como prova de um tempo. Em Terra Nova, por exemplo, existem a casa do agente chefe da estação e a estação ferroviária, sem a mínima conservação que requer um equipamento histórico. A ponte ferroviária, que ligava os dois lados do município, foi cortada como um ferro velho qualquer, um ato indesculpável.

O número de empregados da ferrovia, lotados em Terra Nova não chegava a dez. Normalmente na Estação era o agente chefe mais um ou dois; no Ponto Ceem dois, e um na Bomba.

Seu Antoninho da Estação, como era conhecido o Snr. Antonio Pacheco das Neves, nascido em 1898, provavelmente foi um dos primeiros agente da Estação Terra Nova. Foi sucedido pelo seu filho Lourival Leite Neves, que foi transferido para Salvador com o fechamento do Ramal em 1964; Cláudio, com vários filhos e netos morando na terra, trabalhou como Guarda Chave. Também era lotado na Estação e que foi transferido para Santo Amaro e depois para Salvador, com o fechamento da Ferrovia de Santo Amaro Eduardo Barbosa do Carmo, que trabalhava na Bomba. Este também tem muitos familiares na cidade.

A ferrovia de Santo Amaro fechou em 1964, um dos primeiros atos do Golpe Militar de 1964. Mesmo com a desativação do trecho Santo Amaro/ Bom Jardim, a linha férrea continuou ativa, servindo às usinas de Terra Nova e Paranaguá

A USINA

03 - Usina de Terra Nova.jpgUsina Terra Nova começou a moer em 1902 com a primeira safra de cana 1901/1902.

Os problemas da Usina Terra Nova começaram já na sua primeira moagem, conforme dados transcritos do Arquivo Público da Bahia – Caixa 2367, Maço 129 Doc. 432 (354) “A primeira safra apurada pela usina, de 1901 a1902 coincidiu com a mais baixa de açúcar conhecido, sendo o preço do cristal de 160 a 180 reis o quilograma, e o demerara (açúcar para exportação) de 140 a 160reis, não havendo compradores, senão pra pequenos lotes e tendo a Usina produzido 30.000 sacos de demerara e 4.000 branco. É escusado dizer que foi inteiramente negativo o resultado da safra, que, alem daqueles preços tinha contra si os inconvenientes da estréia sem pessoal habilitado e familiarizado com os mecanismos”.

Sobre a indústria da cana de açúcar e particularmente a fábrica de Terra Nova, vale evidenciar sua passagem sobre a tutela da Companhia Magalhães, reproduzindo a pagina 28 do livro editado pela FIEB Federação das Indústrias da Bahia Memórias da Fieb, elaborado pela historiadora Anna Amélia Vieira Nascimento:
“Com a guerra de 1914o as usinas foram se endividando e várias sociedades para a produção de açúcar foram dissolvidas. No lugar delas surgiu uma subsidiária e Cia., a Companhia Lavoura Indústria Reunidas S/A. Nessa oportunidade, a Casa Magalhães passa a monopolizar o comércio do açúcar na Bahia e a controlar a produção.[…]
A Lavoura Indústria Reunidas S/A, concentrando o grosso da produção nas usinas Aliança, Terra Nova, adquiriu terras de engenhos decadentes, de fogo morto, onde implantou os seus canaviais. A produção de açúcar das usinas Aliança, São Carlos, Terra Nova, São Bento era entregue à Lavoura Indústria Reunidas S/A, da Casa Magalhães.
Poucas foram as usinas da Bahia livre da Quando a Usina se tornou de fogo morto, em 1972, Terra Nova já era um município.

Fechou-se a Usina acabou-se o Hospital, fecharam-se o Posto Médico e todas as residências próximas, que pertenciam ao Grupo Magalhães.

Muitas famílias de diferentes classes, pobres, ou mais remediadas, migraram para outros lugares buscando melhoria. Outras matricularam seus filhos na capital onde ficaram estudando, ou trabalhando e estudando, formando outra geração de famílias,e não retornando mais para sua terra natal. Esse processo migratório não cessou, o que não é bom para o fortalecimento de uma sociedade consciente e participativa.

Caso Terra Nova ainda fosse um distrito de Santo Amaro, quando as duas empresas foram fechadas, com certeza o seu destino não seria melhor do que o dos lugares onde as usinas fecharam antes (São Bento, Cinco Rios, São Carlos, Paranaguá).

Para registrar fisicamente a história da Usina ficaram o Chalé residência do Diretor da Usina, e hoje, aproveitado como sede da prefeitura do município. Destacadas, no Caipe, próximas ao Chalé, ficaram também duas ou três casas grandes de avarandado, moradas de administradores. Hoje uma serve á Igreja e outras foram adquiridas por terceiros. Próxima à esses imóveis resiste uma rua de pequenas casas, que foram residências de operários da usina.

Na área da fábrica de açúcar, ficou como lembrança um bueiro e um casarão abandonado. O escritório da Usina precisa urgentemente de um reparo, pois, caso contrário, com a depredação por que passa o seu telhado um dia será apenas uma foto num quadro de retrato como é a ponte ferroviária, o portão da usina, a casinha de Ponto, a casa da balança de carros de boi, estes três últimos derrubados há não muito tempo, poderiam ter sido conservados sem prejudicar as construções dos novos imóveis. Ao contrário, seria uma atração, pois juntaria num mesmo espaço presente e passado, formando novo conjunto de arquitetura.

Novas Fontes de Trabalho

O fechamento da Usina, além da migração dos trabalhadores, tornou Terra Nova uma cidade dormitório, pois as pessoas que ficaram passaram a trabalhar fora da cidade retornando á noite para suas casas.
Hoje o retorno é no fim da semana.
A Petrobras, que estava se firmando no Recôncavo, foi de fundamental importância para o aproveitamento da mão de obra da usina, que já vinha perdendo seu operariado antes mesmo de fechar. Essa empresa de petróleo disponibilizava diariamente um ônibus para seu pessoal deslocar-se de Terra Nova para Candeias e adjacências. Boa parte, também, se empregou na Companhia de Cimento Aratu e muitos foram transferidos para a usina Aliança.

Escrito por Viraldo B. Ribeiro Sáb,
31 de Outubro de 2009 13:28