PREÁ

Escrito por Viraldo
Seg, 20 de Junho de 2011 22:44

PREÁ

Bichinho peludo, alegre, pernas curtas, rabo cotó, cores variadas (marron, branco, preto, matisada) que vivem escondidas nas áreas de capim.

Lá no massapê da gente, entre Jacuipe e Terra Nova, passando por Rio Fundo elas viviam nas margens da estrada, na porção de capim que enfeitava cada lado a pequena nesga entre o asfalto e o canavial ou a cerca das fazendas.

Até pouco tempo, nas manhãs que eu fazia o percurso de carro, encontrava muitas delas comendo e quentando sol, outras atravessando ligeiro na frente dos carros, de uma margem para outra, ou voltando rápidas para não serem atropeladas, para dentro do capim escondendo-se nas suas moradias. E esse instante se mutiplicava quando, ao invés de prosseguir parava o carro para apreciá-las a distância.

No seu rastro, de tocaia um homem, um menino com espingarda, badogue, cachorro, nunca vi uma mulher. O caçador e caça; a morte e a vida.
No verão o corte da cana reduzia os espaços delas, deixando-as mais vulneráveis numa nesga cumprida de pouco mais de dois metros de largura, a mercê dos caçadores.
Verão, nesga estreita, caça sem distinguir macho de fêmea, fazia a reposição ser menor do que a retirada, apesar da fama de parideira. E elas iam diminuindo. Eu achava até que era uma questão do meu horário, após o quenta sol. Não era, era o desequilibrio, era a extinção que se aproximava, o caçador vira predador. O homem X A preá

As perseguições aumentaram – chegou o verão – parecia que as panelas não estavam satisfeitas. Já não era um homem ou menino, viraram grupos com mais espingardas, cachorros porrêtes. Exterminá-las era uma questão de tempo.

O golpe final veio com o absurdo que presenciei: ateavam fogo nas moitas de capim (que já eram moitas espaçadas, com parte seca) e o grupo ao redor vibrando com porrete na mão, na espreita aguardava sairem de dentro do fogo. Não tiveram a chance de escapar que tinham com da badogada ou tiro errados . Nem mesmo de ouvir o meu protesto, nem elas nem eles.

Nunca mais avistei uma prá quentando-se ao sol, atravessando o asfalto, escondendo-se; nem mesmo um menino andando devagarinho observando o movimento do capim resteiro com o badogue estirado pronto para o golpe errado ou certeiro.

Nunca mais.
Mas fico atento.
É uma pena.
Cadê a preá!

19.06.2011
viraldo